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Reduzir excessos: a proposta da prevenção quaternária

A prevenção quaternária ganha espaço ao alertar para os riscos do excesso de exames, diagnósticos e medicamentos. Especialistas defendem um cuidado mais equilibrado, baseado em evidências e na avaliação individual do paciente. O objetivo não é reduzir a assistência, mas evitar intervenções desnecessárias que podem causar danos, ansiedade e tratamentos sem benefício real à saúde.

Entre Cidades
Por Entre Cidades
Reduzir excessos: a proposta da prevenção quaternária
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Nos últimos anos, tem ganhado força entre especialistas e organizações de saúde a percepção de que mais exames, medicamentos e procedimentos nem sempre significam um atendimento melhor ou mais seguro para o paciente. Iniciativas como o Choosing Wisely, da ABIM Foundation, nos Estados Unidos, e os projetos Too Much Medicine, do British Medical Journal (BMJ), e Less Is More, da JAMA Internal Medicine, passaram a alertar para os riscos do excesso de diagnósticos, da medicalização da vida cotidiana e do uso desnecessário de exames e tratamentos. 

No centro desse debate está a chamada prevenção quaternária — abordagem médica voltada para evitar danos causados por excessos do próprio sistema de saúde.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), erros relacionados à medicação estão entre as principais causas de danos evitáveis na assistência médica. “Estimativas internacionais apontam que milhões de pessoas sofrem consequências de tratamentos desnecessários, efeitos adversos de medicamentos e exames que acabam levando a procedimentos invasivos sem necessidade”, alerta o médico Lucas Moser.

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No Brasil, o fenômeno também preocupa. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram um crescimento expressivo da utilização de exames diagnósticos na saúde suplementar brasileira. O número de exames realizados por beneficiários de planos de saúde passou de 861,4 milhões em 2018 para mais de 1,18 bilhão em 2024. No mesmo período, a média anual de exames por beneficiário aumentou de 18,5 para cerca de 23 exames por pessoa. Avanços tecnológicos, ampliação da oferta diagnóstica, medicina defensiva e a percepção de que mais investigação significa melhor cuidado contribuem para esse cenário

O problema dos exames em excesso

Tomografias, ressonâncias magnéticas, check-ups extensos e testes laboratoriais passaram a fazer parte da rotina de milhões de pessoas. “Isso ocorre, inclusive, sem sintomas ou indicação clínica clara. O problema é que exames realizados sem necessidade aumentam o risco de resultados falso-positivos, que seriam alterações que parecem indicar doenças, mas que na prática não representam perigo real”, explica o Dr. Lucas Moser. Para ele, não há dúvida de que “mais exames nem sempre significam mais saúde”.

Um estudo publicado pelo The BMJ alerta que o excesso de rastreamento pode levar ao chamado sobrediagnóstico (overdiagnosis), situação em que uma alteração ou doença é identificada, mas jamais causaria sintomas ou ameaça à vida do paciente. Como não é possível saber com precisão quais casos permaneceriam inofensivos, muitos indivíduos acabam submetidos a biópsias, cirurgias, tratamentos medicamentosos e acompanhamentos médicos que talvez nunca fossem necessários, expondo-se a riscos físicos e psicológicos sem benefício proporcional.

A cultura da medicalização

O Brasil figura entre os maiores mercados farmacêuticos do mundo e registrou crescimento consistente no consumo de antidepressivos na última década, segundo estudo baseado em dados da IQVIA, empresa global de inteligência em saúde. A análise aponta aumento contínuo das vendas entre 2014 e 2019, com expansão de cerca de 23,3 para 38,3 doses diárias definidas por mil habitantes/dia, indicando avanço do uso desses medicamentos no país e reforçando o debate sobre medicalização e ampliação do tratamento medicamentoso para sofrimento psíquico.

“É importante destacar que isso não significa que os medicamentos sejam desnecessários. Em muitos casos, eles são fundamentais e salvam vidas. O problema ocorre quando o uso acontece sem critérios adequados, sem revisão periódica ou como resposta automática para qualquer desconforto”, explica o médico Lucas Moser.

O que é prevenção quaternária

A prevenção quaternária surgiu nos anos 1980 e vem ganhando relevância em sistemas de saúde do mundo inteiro. O conceito foi desenvolvido pelo médico belga Marc Jamoulle e propõe identificar pacientes em risco de excesso de intervenção médica, protegendo-os de exames, diagnósticos e tratamentos desnecessários. Na prática, significa adotar uma medicina mais cuidadosa, centrada na escuta, na avaliação individual e no equilíbrio entre riscos e benefícios.

“Prevenção quaternária não é deixar de investigar ou economizar atendimento. Ao contrário: trata-se de oferecer cuidado mais seguro, ético e realmente necessário”, reforça Dr. Lucas Moser.

Entre os principais pilares da abordagem estão:

  • evitar exames sem indicação clínica;
  • reduzir prescrições desnecessárias;
  • revisar continuamente o uso de medicamentos;
  • respeitar a individualidade do paciente;
  • estimular decisões compartilhadas;
  • priorizar qualidade de vida e bem-estar.


Ansiedade, redes sociais e a busca por diagnósticos

A era digital também parece ter intensificado a procura por exames e tratamentos. Segundo o médico Lucas Moser, o excesso de informações médicas disponíveis na internet contribui para a chamada hipervigilância corporal, que nada mais é do que um estado em que a pessoa passa a interpretar qualquer sintoma mínimo como um problema de saúde.

Com acesso instantâneo a informações médicas, vídeos nas redes sociais e aplicativos de saúde, muitas pessoas passaram a monitorar constantemente o corpo em busca de sinais de doenças. A prática pode aumentar a ansiedade e gerar uma sensação permanente de risco.

O desafio do equilíbrio

A medicina preventiva continua sendo fundamental para reduzir mortes por doenças cardiovasculares, câncer e diabetes, por isso, a solução não parece estar em abandonar exames ou tratamentos importantes. Vacinação, rastreamento bem indicado, acompanhamento clínico e tratamentos comprovadamente eficazes seguem salvando milhões de vidas.

“O desafio atual é encontrar equilíbrio para que, mesmo com tanta tecnologia disponível, não se saia fazendo e utilizando tudo indiscriminadamente, mas, sim, se faça o que realmente importa e beneficia de fato o paciente”, indica Lucas Moser.

A discussão sobre prevenção quaternária vem crescendo também nas universidades e entre profissionais de saúde brasileiros, especialmente na medicina de família e comunidade. Para os defensores da abordagem, o futuro da medicina depende não apenas de novas tecnologias, mas também da capacidade de evitar excessos.



Website: http://lucasmoser.com
FONTE/CRÉDITOS: DINO
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